quarta-feira, 16 de maio de 2012

AMOR e DESCONCERTO do MUNDO nos SONETOS Luís de Camões

AMOR e DESCONCERTO do MUNDO nos SONETOS Luís de Camões
Luís Vaz de Camões (Lisboa[?], c. 1524 — Lisboa, 10 de junho de 1580)
Foi um célebre poeta de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente.
Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Aparentemente nasceu em Lisboa, de uma família da pequena nobreza. Sobre a sua infância tudo é conjetura mas, ainda jovem, terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Pode ter estudado na Universidade de Coimbra, mas a sua passagem pela escola não é documentada. Frequentou a corte de Dom João III, iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar uma vida boémia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, se autoexilou em África, alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu bravamente ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. De volta à pátria, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei Dom Sebastião pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter.
Logo após a sua morte a sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas, tendo deixado também três obras de teatro cómico. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional. Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.
Classicismo - A poesia lírica de Camões
A obra lírica de Camões é constituída por poemas feitos em medida velha e em medida nova.
A medida velha obedece a poesia de tradição popular, as redondilhas, de 5 ou 7 sílabas (menor ou maior, respectivamente). São composições com um tema.
Os poemas em medida nova são formas poéticas ligadas a tradição clássica. São eles:
- Sonetos (composições poéticas de 14 versos, distribuídas em dois quartetos e dois tercetos);
- Éclogas (poesia em forma de diálogo, com tema pastoril);
- Elegias (composições que expressam tristeza);
- Canções (composições curtas);
- Oitavas (poemas com as estrofes de 8 versos);
- Sextinas (poemas com as estrofes de 6 versos).

Na poesia lírica de Camões o amor é descrito como um sentimento que entusiasma o homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a Verdade. Também aparece como um sentimento de significado contrário pela própria natureza. Por um lado, o Amor é manifestação do espírito, por outro é manifestação física. Para Camões, o Amor deve ser experimentado, deve ser sentido e não apenas mental, um sentimento de pensamento.
Na sua poesia lírica, o poeta passa a ideia de que o amor só vale a pena quando é complexo, e contraditório. Nos poemas de medida velha, Camões está mais próximo da poesia popular medieval, já nos de média nova aproxima-se de grandes vultos clássicos.

Os Sonetos de Camões

Introduzido em Portugal por Sá de Miranda, coube a Camões assegurar o triunfo do soneto, mercê de sua irresistível vocação lírica; do seu gosto pela análise das finezas do sentimento amoroso; do equilíbrio entre a agudeza conceitual, a perfeição formal e a expressão comovida dos transes existenciais do poeta; da musicalidade feliz que, por trás do rigor da construção, faz parecerem espontâneos os decassílabos.
Os sonetos de Camões são a parte mais conhecida de sua lírica; os melhores que escreveu são os melhores de toda a literatura da língua portuguesa.
Camões é o maior poeta lírico do Classicismo português.
Dotado de inegável genialidade, coube a ele a melhor performance do soneto em língua portuguesa. Camões segue estritas regras de composição, obedecendo ao princípio da imitação, embebendo-se em fontes italianas como as do poeta Petrarca.
A brevidade do soneto - dois quartetos, dois tercetos - requer grande concentração emocional, geralmente disposta sob a forma de tese-antítese com desfecho conclusivo que busca a síntese ou a unidade. A linguagem é condensada no decassílabo, utilizando a palavra de forma precisa, permeada pelo controle rígido da razão, mesmo quando o tema é uma aparente desordem.
Veja a análise do poema "Amor é um fogo que arde sem se ver"

Análise do poema Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta sida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cd me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou

O soneto, que os biógrafos associam à morte de Dinamene, chinesa com quem Camões teria vivido em Macau, é dos mais conhecidos. Segundo a tradição, acusado de delitos administrativos, Camões e Dinamene teriam sido levados da China para a Índia, onde seria julgado o poeta. Na viagem, por volta de 1560, o navio naufraga nas costa do Camboja, junto à foz do rio Mekong.
Camões teria conseguido salvar-se e salvar Os Lusíadas, que trazia quase concluído, mas teria perdido Dinamene, a sua "alma gentil", relembrada em elevado tom elegíaco, quase místico.
O platonismo revela-se, no soneto, pela sublimação eternizadora da amada, a partir de sua morte. O poeta contempla a amada transubstanciada em puro espírito ("lá no assento etéreo"), por via do muito amar.
O apelo aos sentidos é transcendentalizado, imaterializado buscando Dinamene no Céu, em Deus, entendidos como valores filosóficos, míticos, e não apenas religiosos ou cristãos. A morte implica uma espécie de purificação. A amada, que partiu para esse "mundo das idéias e formas eternas", também se torna objeto de elevação e saudade. Mas a "reminiscência", neste caso, tem mão dupla: do poeta, que se eleva à beleza imaterial da amada, como usual, e também na direção oposta, pois o poeta sugere a possibilidade de que a amada se lembre dele, "lá do assento etéreo".
O poeta equilibra a expressão de seus transes existenciais com a disciplina clássica.
Emoção e razão, expressão pessoal e imitação modelam uma dicção sóbria, contida, mas nem por isso menos comovente. Mesmo quando aproveita o material autobiográfico, não há o "descabelamento" desesperado dos românticos. A morte da amada serve também ao exercício poético da imitação, no caso, do modelo petrarquista: "Quest anima gentil che si diparte / Anzi tempo chiamata a l'altra vita".
Observe que, curiosamente, em "Alma minha..." o ouvido de Camões foi indiferente a uma cacofonia ("maminha"), que hoje seria de todo modo evitada.
A situação conflitante que o poeta retrata projeta uma tensão que se aproxima do Maneirismo e, por essa via, do Barroco: a presença da morte, o tom fatalista, o dualismo que opõe vida e morte, passado e presente, serenidade e sofrimento.
Além do tema amoroso, Camões se faz cantor dos desconcertos do mundo. Espírito muito atento à sua época, tem plena consciência de que tudo muda, nada é eterno.
O homem, embora queira sempre atingir o ideal e a perfeição, depara-se com a terrível restrição imposta pela própria condição humana. O poeta chega à conclusão de que não existe o absoluto ou o eterno, restando a ele divagar sobre o real e o ideal, o eterno e o transitório, a morte e a vida, o pessoal e o universal. Nesses pares, encontram-se as mais profundas tensões que a lírica já deixou transparecer.

Análise soneto - Amor, é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, de Luís Vaz de Camões, trata de um conceito do amor na concepção do neoplatonismo, pois, acentua-se o dualismo platónico entre sensível e inteligível, matéria e espírito, finito e infinito, mundo e Deus. Este soneto é uma definição poética do amor. Como se Camões quisesse definir este sentimento indefinível e explicar o inexplicável, colocando imensos contrastes para caracterizar este “mistério”. Para Camões, o Amor (com A maiúsculo) é um tipo de ideal superior, perfeito e único, pelo qual há o anseio de atingi-lo, mas como somos imperfeitos e decaídos, somos ao mesmo tempo incapazes de chegar a esse ideal. O amor é visto, então, como um sentimento que envolve sensações e que ocorre quando existe um senso de identidade entre pessoas com identidades bem definidas e diferenciadas. Existe a dualidade da incerteza do amor “físico” (com a minúscula) com o Amor ideal, assim o amor é um tipo de “imitação” do Amor, na realidade o autor procura compreender e definir o processo amoroso. Conceituando a natureza paradoxal do amor, o soneto ressalta em enunciados antitéticos, compondo um todo lógico, o caráter paradoxal do sentimento amoroso. Esclarecendo-se, entretanto, que tais contradições são, por vezes, aparentes, pois, a segunda parte de cada verso funciona como complemento da primeira, enfatizando-a por intermédio da aproximação de realidades distintas. O aspecto material, sensível “ferida que dói”, “é dor que desatina” é oposto ao espiritual “em que se sente”, “sem doer”, como, de resto pode-se observar ao longo de todo o soneto, culminando com a indagação final, a traduzir toda a perplexidade diante da total impossibilidade de se compreender o próprio amor. Camões parece estar coberto de razão ao afirmar que "tão contrário a si é o mesmo amor", mas diversamente do percurso camoniano, ele aponta para a alma, então, o poeta parece chegar a uma conclusão, expressada pela interrogação no último terceto. A forma do soneto corresponde ao tema do poema. Podemos dizer que a primeira vista é um jogo renascentista, mas depois descobrimos o sentido profundo do poema. E nisso encontramos a arte do autor – nesta capacidade de abordar de forma suave (como se fosse jogo) um tema que nos faz pensar profundamente nos problemas psicológicos bastante complicados. Portanto este soneto trata de uma verdade enunciada com aparência de mentira.

Análise da redondilha “Descalça vai Leanor
MOTE: Descalça vai pera a fonte
Leanor pela verdura,
Vai fermosa e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata.
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote,
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado,
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça a fermosura.
Vai fermosa, e não segura.

Como tivemos ocasião de observar, o tema deste vilancete como se estivesse tirado dos antigos cancioneiros medievais, incluindo os elementos bucólicos, típicos para as pastorelas, como a fonte ou o caminho cheio da verdura. Também a métrica dos versos faz nos lembrar o trovadorismo medieval, usando o autor a medida velha, ainda acentuada pelo uso do refrão em cada estrofe (inclusive no mote).
Os vestígios da transição da poesia trovadoresca medieval para a renascentista (fenómenos sintomáticos para o Cancioneiro Geral) é possível ver no retrato da Leanor, que de certa maneira podia até ser considerada como uma “mulher petrarquiana”: loira, bela e graciosa, acentuando a graça espiritual.
escarlata – tecido vermelho de lã; sainho – casaco curto; vasquinha – saia com muitas pregas; de cote – de uso diário.
 Lírica renascentista-petrarquista
Depois de termos analisado a corrente inspirativa peninsular, vamos olhar para a herança clássica na obra de Camões, isto é, tentar procurar na lírica camoniana os fenómenos nos quais podemos demonstrar a inspiração pela renascença italiana e sobre tudo, pela obra de Petrarca.
Quanto à forma, na época de Camões mistura-se a medida velha com o estilo novo, introduzido para Portugal da Itália por Sá de Miranda. Como sabemos, neste estilo novo predomina o decassílabo, que abre a porta ao soneto (ao qual vamos prestar a maior atenção), à canção de novo molde, à ode, à écloga, à elegia e às outras novas formas da poesia.
Falando dos temas na lírica italianizante camoniana, temos que mencionar o galanteio ou o encarecimento amoroso, a psicologia da paixão amorosa, mas também os temas filosóficos como, por exemplo, o desajustamento entre o merecimento e a fortuna, entre o direito à felicidade e o gozo dela, etc.
O papel inspirativo de Petrarca é possível ver sobre tudo nas composições camonianas amorosas. A mulher ideal, a imagem da Amada em Camões é mesmo petrarquiana. Petrarquiana é também a ideia do apuramento do Amor graças à ausência.
Analisemos agora um soneto dos mais bonitos na obra camoniana:

Análise do soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer,
É solitário andar por entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É um cuidar que ganhou em se perder.
É querer estar preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Este soneto é uma definição poética do amor. Como se o Camões quizesse definir este sentimento indefinível e explicar o inexplicável, inventando imensos contrastes para caracterizar este “mistério”.
O poeta parece chegar a uma conclusão, expressada pela interrogação no último terceto. A forma do soneto bem corresponde ao tema do poema. Podemos dizer que a primeira vista é um jogo renascentista, mas depois descobrimos o sentido profundo do poema. E nisso encontramos a arte do autor – nesta capacidade de tomar de leve (como se fosse jogo) um tema que nos faz pensar profundamente nos problemas psicológicos bastante complicados.

 O tema do amor na lírica camoniana
Com este soneto estamos a chegar para o facto de que o tema do amor é predominante na lírica camoniana. Salienta-se tanto em tom ligeiro, como espirituoso ou picante. Na obra camoniana podemos encontrar toda a variedade quanto às formas da poesia amorosa: desde a cortesanesca até a séria, com o sentimento de pecado.
A lírica camoniana amorosa mostra não só uma ampla variedade das possibilidades da expressão, tanto na forma como no tema, mas também e sobre tudo uma profundidade ao expressar um dos mais belos sentimentos humanos, aproveitando ao lado das possibilidades literárias renascentistas (modernas na época), também a herança trovadoresca peninsular.
E é por esta razão e outras que Luís Vaz de Camões é considerado o poeta nacional, o maior lírico português, mas também um dos maiores líricos europeus não só do Renascimento.

POEMAS DE CAMÕES
Os poemas de Camões apresentam diversos temas (tensões) que foram abordados pelo autor para demonstrar seus sentimentos e questionamentos, sendo eles: o amor e a mulher, o autobiografismo, o sentimento religioso, os desconcertos do mundo.

O AMOR E A MULHER
“Pede-me o desejo, Dama, que vos veja”
Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,
não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousa a qual natural seja
que não queira perpétuo seu estado;
não quer logo o desejo o desejado,
porque não falte nunca onde sobeja.
Mas este puro afeito em mim se dana;
que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da natureza,
assim o pensamento (pela arte
que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.
Encontramos neste soneto um pensamento sobre o amor, inicialmente falando-se sobre o desejo e de como quem ama não sabe ao certo o que deseja. O sentimento tão físico de desejar se transforma em platônico e não sendo concretizado é condição para que o amor seja eterno. Existe, então, o conflito entre o espiritual e o carnal quando o eu-lírico expõe a sua condição terrena e humana.
O amor e a referência à mulher são levados para o sentimento platônico, como pode se observar na primeira estrofe “É este amor tão fino e tão delgado”, porém também existe a contrariedade da condição humana em “que vai tomar de mim, terrestre [e] humana”, características que dão força dramática ao poema. Durante todo o tempo existe o conhecimento do que seja eterno e também a contrariedade do desejo físico, num questionamento que exprime também a força intelectual do poema.
O AUTOBIOGRAFISMO
“Erros meus, má fortuna, amor ardente”
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa a que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro gênio de vinganças!
Observa-se claramente neste soneto a vida do poeta, onde autor e eu-lírico se fundem, sendo enfatizados seus erros, causa de castigo da deusa Fortuna: “Errei todo o discurso de meus anos; dei causa a que a Fortuna castigasse”. O sentimento de arrependimento se faz presente numa confissão e também, a compreensão de que somente o amor, na sua essência, era o suficiente.
Encontramos a força do lirismo último, quando o autor apresenta um questionamento sobre suas ambições, que de uma forma geral, são as ambições humanas. Esta acaba por englobar a força intelectual com suas questões existenciais (que exigem conhecimento) e a força dramática com seus contrates (no caso, o certo e o errado).
Olhando por uma outra ótica, podemos também incluir este poema na tensão “os desconcertos do mundo”, que será vista com mais detalhe posteriormente, e que nos apresenta o desengano com a existência. O autor demonstra uma desesperança diante da vida quando diz “a não querer já nunca ser contente”, com um toque de dramaticidade causada, como vimos, pelo conflito entre o que é certo e errado.
O SENTIMENTO RELIGIOSO
“Verdade, Amor, Razão e Merecimento”
Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
qualquer alma farão segura e forte;
porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,
têm do confuso mundo o regimento.
Efeitos mil revolve o pensamento
e não sabe a que causa se reporte;
mas sabe que o que é mais que vida e morte,
que não o alcança humano entendimento.
Doctos varões darão razões subidas,
mas são experiências mais provadas,
e por isso é melhor ter muito visto.
Cousas há i que passam sem ser cridas
e cousas cridas há sem ser passadas,
mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
O autor coloca em seu soneto os valores, como personagens, que garantem a elevação da alma, “Verdade, Amor, Razão, Merecimento”, em oposição aos valores que regem o mundo, “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”. Sua intenção é mostrar a essência do contraste entre a visão religiosa que proporciona a vida eterna e a visão materialista que busca os prazeres do mundo, e que mais que o homem pense, não consegue entender. Para tanto, seguindo a sua crença, indica que tudo deve ser visto com os olhos da fé em Cristo, como explicitado no verso “mas o melhor de tudo é crer em Cristo”.
Essa crença em Cristo é apresentada como o caminho para se encontrar a solução da questão do confronto entre o bem e o mal, o certo e o errado, reflexo de uma angústia que mostra a força dramática do poema. As oposições e os contrastes que Camões utiliza, mostram também uma característica que aparece em muitos de seus poemas, o maneirismo, que se utiliza de antíteses e paradoxos para demonstrar o drama interior do poeta, uma das características dos artistas do Renascimento.

OS DESCONCERTOS DO MUNDO
“Ao desconcerto do Mundo”
Os bons vi sempre passar
no Mundo grandes tormentos;
e pera mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
assim que, só pera mim,
anda o Mundo concertado.
O autor considera na primeira parte de seu poema que todos que são bons passam por “grandes tormentos” e que a vida de quem é mau, um “mar de contentamentos”. Em seguida, revela que para garantir essa vida feliz resolveu ser mau, porém foi castigado, e conclui que só para ele vale a regra de que só alcança o bem quem é bom: “assim que, só para mim, anda o Mundo concertado”; para o poeta, um desconcerto do mundo é premiar quem é mau e castigar quem é bom.
Neste poema encontramos a força musical nas suas rimas, no jogo entre as palavras bom,bem,mal,mau e também no uso da medida velha com o emprego da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas: Os/bons/vi/sem/pre/pas/sar), que garantem a musicalidade e a graça, características da lírica medieval mas que o poeta renova com o relato das experiências da sua vida e cujo resultado é a beleza de cenas do cotidiano humano.

Cantor dos desconcertos do mundo

Camões é o maior poeta lírico do Classicismo português. Dotado de inegável genialidade, coube a ele a melhor performance do soneto em língua portuguesa. Camões segue estritas regras de composição, obedecendo ao princípio da imitação, embebendo-se em fontes italianas como as do poeta Petrarca. A brevidade do soneto -- dois quartetos, dois tercetos -- requer grande concentração emocional, geralmente disposta sob a forma de tese-antítese com desfecho conclusivo que busca a síntese ou a unidade. A linguagem é condensada no decassílabo, utilizando a palavra de forma precisa, permeada pelo controle rígido da razão, mesmo quando o tema é uma aparente desordem. Assim, Camões é capaz de expressar-se de maneira extremamente concisa em sonetos narrativos como o famoso "Sete anos de pastor Jacó servia" e de lamentar de maneira semi-romântica a ausência da amada em "Alma minha gentil, que te partiste". É nos sonetos de análise que o poeta alcança maior desenvoltura, tecendo reflexões sobre o tempo - "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" - buscando uma definição do amor, ilustrada por uma de suas mais famosas produções - "Amor é fogo que arde sem se ver". Ele capta a psicologia feminina através de versos inesquecíveis, cujo exemplo mais significativo está em "Um mover de olhos, brando e piedoso". São muitas as composições lírico-amorosas, em que a mulher e o amor são idealizados como forma de atingir a supremacia do Bem e da Beleza. Camões se deixa levar por um certo sensualismo carnal que se opõe ao ideal petrarquiano do amor, ilustrado por "Transforma-se o amador na coisa amada". Além do tema amoroso, Camões se faz cantor dos desconcertos do mundo. Espírito muito atento à sua época tem plena consciência de que tudo muda nada é eterno. O homem, embora queira sempre atingir o ideal e a perfeição, depara-se com a terrível restrição imposta pela própria condição humana. O poeta chega à conclusão de que não existe o absoluto ou o eterno, restando a ele divagar sobre o real e o ideal, o eterno e o transitório, a morte e a vida, o pessoal e o universal. Nesses pares, encontram-se as mais profundas tensões que a lírica já deixou transparecer.

Sonetos
Eu cantarei de amor tão docemente
Fala da própria atividade poética

Em "aqui falta saber, engenho e arte" Camões usa de uma falsa modéstia, duvidando de sua capacidade de fazer um poema a altura da amada, desse modo também exaltando a beleza da mesma

Um mover d'olhos brando e piedoso
Retrato da amada
Mostra um ideal de beleza clássico
Segue um procedimento anafórico (repetição de uma mesma estrutura) - "um (...)"
Só se esclarece o assunto do poema na última estrofe
A descrição sugere um caráter tímido e delicado da amada
1ª estrofe: descreve fisicamente sugerindo um comportamento de delicadeza (ideal de beleza clássico)
2ª e 3ª estrofe: descreve o caráter da amada, quebrando a imagem de delicadeza com antíteses (manifesto indício, encolhido ousar) e sugerindo que há algo mais na mulher
4ª : esclarece o assunto do poema, eleva beleza da amada a um patamar divino (celeste formosura) e compara-a a uma feiticeira da mitologia (retomada da cultura greco-latina) que o encanta. A emoção, porém, não é totalmente boa, perturbando o eu-lírico
As antíteses "manifesto indício", "encolhido ousar" sugerem o jogo de sedução feminino, que ora esconde (indício) e ora mostra (manifesto). A comparação com uma feiticeira também sugere o jogo.

Transforma-se o amador na cousa amada
Especulação racional sobre o amor, mostrando a luta entre a satisfação no plano ideal (amor platônico) e o desejo no plano corpóreo
1ª e 2ª estrofes: remetem à teoria platônica do amor, dizendo que a união por meio da imaginação deveria satisfazer o amante
3ª e 4ª: "Mas" - oposição à idéia platônica, é impossível se satisfazer apenas com idéias, sendo necessária a realização física para se sentir completo (Aristóteles)

Alma minha gentil que te partiste
Tema: perda da amada
Dirige-se à amada o tempo todo
Influência da filosofia platônica: união de almas, idealização da mulher, crença em um plano superior
O amante só se completa no amado
1ª estrofe: divinização da amada por estar num plano superior ("Céu"), antítese ("lá" / “cá" e "Céu/terra") evidencia o distanciamento que entristece o eu-lírico
2ª estrofe: "Se lá no assento etéreo, onde subiste/ memória desta vida se consente" - se no céu você pode lembrar-se da vida terrena; "não te esqueças daquele amor ardente/ que já nos olhos meus tão puro viste" - 'amor ardente' tem conotação sexual, lembra sensualidade. Apesar disso, é envolvido por uma aura de pureza, é contido (amor platônico)
3ª e 4ª: Se você achar que mereço algo pelo que sofri com a sua perda, peça a Deus que me leve cedo, como ele te levou. Súplica à amada, evidenciando a necessidade de cumplicidade. A amada também é vista como um meio de acesso ao plano superior

Amor é fogo..
Tema: Instabilidade do sentimento (amor) e das sensações causadas por ele; retrato de um sentimento
Influência tanto do Classicismo como do Maneirismo:
·         é feita uma análise do sentimento, tentando entendê-lo racionalmente (classicismo), há um equilíbrio emocional (o poeta não fala dos seus sentimentos)
·         o sentimento é retratado como algo instável, mutável (maneirismo)
·         a temática (instabilidade do amor) é maneirista
·         a postura do poeta (racionalismo, sobriedade) é classicista
Embora adote uma postura classicista, não consegue atingir os objetivos e valores desse estilo (harmonia, equilíbrio), revelando a instabilidade dos sentimentos (maneirismo)
A investigação termina com uma dúvida: Como as pessoas podem desejar algo tão instável (Mas como pode causar seu favor/nos corações humanos amizade/se tão contrário a si é o mesmo amor)
A conclusão feita é que o amor é algo que não se pode compreender ou definir
Procedimento anafórico (repetição de estruturas): Amor../ é.., assim como em "Um mover de olhos"
Várias antíteses e paradoxos, revelando o espírito maneirista

Tanto de meu estado me acho incerto...
Tema: instabilidade dos sentimentos
Abordagem: particular, íntima, busca compreender a si próprio
Há um sentimento de inquietação, desequilíbrio e desassossego (Maneirismo)
O estado do eu lírico é resumido por "É tudo quanto sinto um desconcerto"
Grande uso de antíteses e paradoxos, mostrando variações no plano físico (ardor/frio), sentimental (choro/rio) e mental (desvario -loucura/ acerto - razão)
Na terceira estrofe:
"Estando em terra, chego ao Céu voando" - referência ao próprio pensamento "num'hora acho mil anos, e é de jeito/que em mil anos não possa achar um'hora" às vezes parece que o tempo passa devagar, outras muito rápido
A estrofe revela a perda de noção espacial e temporal
4ª: embora ache ("suspeito") que a razão de suas inquietudes seja o amor, o eu lírico não tem certeza (incerteza - maneirismo)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Tema: inconstância
Embora não faça uso de antíteses, o poema é expressão do Maneirismo. Apresenta a mudança como a essência da vida humana.
1ª estrofe: afirma-se a instabilidade tanto do mundo exterior ('os tempos') como do interior ('as vontades'); daí parte uma afirmação influenciada pela filosofia de Heráclito (todo o mundo é composto por mudança): ou seja há inconstância em todas as áreas da vida
2ª estrofe: 'Continuamente vemos novidades/diferentes em tudo da esperança' - sempre vemos mudanças, diferentes do que se espera; postura pessimista diante das mudanças
3ª estrofe: dá um exemplo: a mudança do inverno para a primavera. Embora essa passagem seja geralmente associada à felicidade, para o eu-lírico ela traz melancolia (converte em choro o doce canto)
4ª estrofe: "já não se muda como soía" - já não se muda do mesmo modo como costumava mudar, ou seja, até a própria mudança é inconstante, imprevisível, diferente de antigamente. Isso causa estranheza e inadaptaçaão no eu-lírico

Os bons vi sempre passar
Tema: Desconcerto do mundo
Não é soneto, a métrica retoma as cantigas medievais: redondilha maior (7 sílabas poéticas)
Maneirismo: no próprio tema, jogo de contrários (Bem e Mal)
Faz uma análise da sociedade que o cerca: Os bons se dão mal e os maus se dão bem (1a estrofe)
Mundo governado por uma lógica injusta
Para tentar alcançar sucesso, muda seu comportamento ('fui mau'). Entretanto, não consegue alcançar seu objetivo, sua maldade é punida.
"Mas" - oposição à lógica injusta evidenciada anteriormente
O poeta lastima-se não só por verificar o sucesso constante dos maus, mas também por seu próprio destino - mesmo tentando ser mau, é punido e nao consegue alcançar os objetivos.

Na fonte está Lianor
Resgate da tradição medieval: no tema (queixa de uma camponesa com saudades do namorado), na métrica (redondilha maior) e na estrutura do poema, a das cantigas (um mote c/ 4 versos e uma glosa c/ 8)
Embora resgate essa tradição, a cantiga difere das medievais por ser narrada em terceira pessoa
Os poemas de Camões que resgatam essa tradição são divididos em duas partes:
Cantigas Alheias: o mote da cantiga, extraído de uma cantiga medieval de outro autor
Voltas de Camões: desenvolvimento escrito por Camões
1ª estrofe (das voltas): personificação do Amor como um deus tirano (como no episodio de Inês de Castro), "mas a cantiga eram suspiros por ele" - oposição entre cantiga e suspiro, já que geralmente o canto é uma expressão de alegria e nesse caso é de tristeza
2ª: descrição física, oscilações sentimentais ilógicas provocadas pelo amor: ora ela chora, ora não, ora ela tem a dor abrandada, ora sofre mais
3ª: não chora para não aliviar os sentimentos, a mágoa seca suas lágrimas, só chora quando enfim recebe notícias do amado, aliviada

Um comentário:

  1. Olá! sobre a possível cacofonia de "alma minha", vale pesquisar quando surgiu a palavra "maminha". Abraços!

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