quinta-feira, 17 de maio de 2012

Libertinagem - Manuel Bandeira

Manuel Bandeira
Filho do engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de sua esposa Francelina Ribeiro, era neto paterno de Antônio Herculano de Sousa Bandeira, advogado, professor da Faculdade de Direito do Recife e deputado geral na 12ª legislatura. Tendo dois tios reconhecidamente importantes, sendo um, João Carneiro de Sousa Bandeira, que foi advogado, professor de Direito e membro da Academia Brasileira de Letras e o outro, Antônio Herculano de Sousa Bandeira Filho, que era o irmão mais velho do engenheiro Sousa Bandeira e foi advogado, procurador da coroa, autor de expressiva obra jurídica e foi também Presidente das Províncias da Paraíba e de Mato Grosso.
Seu avô materno era Antônio José da Costa Ribeiro, advogado e político, deputado geral na 17ª legislatura. Costa Ribeiro era o avô citado em Evocação do Recife. Sua casa na rua da União é referida no poema como "a casa de meu avô". No Rio de Janeiro, para onde viajou com a família, em função da profissão do pai, engenheiro civil do Ministério da Viação, estudou no Colégio Pedro II (Ginásio Nacional, como o chamaram os primeiros republicanos) foi aluno de Silva Ramos, de José Veríssimo e de João Ribeiro, e teve como condiscípulos Álvaro Ferdinando Sousa da Silveira, Antenor Nascentes, Castro Menezes, Lopes da Costa, Artur Moses.
Em 1904 terminou o curso de Humanidades e foi para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, que interrompeu por causa da tuberculose. Para se tratar buscou repouso em Campos do Jordão, Campanha e outras localidades de clima mais ameno. Com a ajuda do pai que reuniu todas as economias da família foi para a Suíça, onde esteve no Sanatório de Clavadel. ao regressar, iniciou na literatura, com "A Cinza das Horas", em 1917, e dois anos depois, com a publicação de "Carnaval".
Em 1935, foi nomeado inspetor federal do ensino e, em 1936, foi publicada a “Homenagem a Manuel Bandeira”, coletânea de estudos sobre sua obra, assinada por alguns dos maiores críticos da época, alcançando assim a consagração pública. De 1938 a 1943, foi professor de literatura no Colégio D. Pedro II, e em 1940, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Posteriormente, nomeado professor de Literaturas Hispano-Americanas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, cargo do qual se aposentou, em 1956.
Manuel Bandeira faleceu no dia 13 de outubro de 1968, com hemorragia gástrica, aos 82 anos de idade, no Rio de Janeiro, e foi sepultado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Libertinagem
Libertinagem é o quarto livro de poesia do escritor brasileiro Manuel Bandeira, publicado em 1930, mas é o seu primeiro livro verdadeiramente moderno e importante.  É composto por 38 poemas, entre os quais se destacam "Pneumotórax", "Pensão Familiar", "Profundamente" e "Vou-me embora pra Pasárgada”.
Os poemas de Libertinagem contêm humor, erotismo e refinamento musical.
É uma sucessão de poemas espantosos, cheios de novidade, humor, erotismo, refinamento musical, força de imagens – tudo isso produzindo uma intensidade emocional que, às vezes, aproxima-se do piegas, mas nunca cai nele.

Análise do livro "Libertinagem"

Estilo
A poesia de Manuel Bandeira caracterizou-se pela variedade criadora, desde o soneto parnasiano, pela prática do verso livre, até por experiências com a poesia concretista. Por outro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, como os versos em redondilhas maiores. Em sua poesia, observa-se uma constante nota de ternura e paixão pela vida. Seu lirismo intimista registra o cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido de evento e espetáculo. Nela, também, estão presentes a infância, a terra natal, a cultura popular, a doença, a preocupação com a morte, a defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a reflexão existencial, a infância e o humor.
Verificamos, em Manuel Bandeira, traços indicadores de uma sensibilidade romântica, sobretudo de uma profunda tristeza, aliada ao desencanto e à melancolia. A confissão de seu estado de espírito, da presença do “eu” em poemas e da morte como motivo poético mais freqüente conferiu-lhe uma aura romântica.

Temáticas e estilos
A morte estava muito presente na vida de Bandeira, pois muito jovem descobriu a tuberculose. Como não pôde seguir a vida como arquiteto, Bandeira começou a se dedicar à poesia para preencher o espaço. Esta temática está presente desde o primeiro livro. A morte também determinou um estilo, mas sem o entusiasmo dos modernistas da época. Os paulistas eram extremamente exaltados, como Oswald e Mário de Andrade. Bandeira era um poeta da humildade, do tom mais baixo.
Outra temática dos poemas de Bandeira é a sensualidade, tratada de maneira diferente, não tradicional. O objeto do desejo era principalmente as prostitutas. Em função da própria experiência de vida sexual dele, não convencional por causa da doença.
Também a infância, como retorno ao passado, opõe-se a este presente de angústia e dor vivenciado pelo poeta. O folclore, suas quadras e canções populares, a família sempre apareceram ligados à infância. Foi o tempo feliz antes da doença. Depois o pai, a mãe e o irmão morreram, então foi o tempo de comunhão com os parentes.
(Esse é um dos aspectos fortes da poesia de Bandeira: levar a simplicidade até a beira da sentimentalidade, mantendo-se sempre, com mestria e finura, longe de qualquer vulgaridade.)
Alguns dos poemas mais famosos de Bandeira fazem parte deste livro: “Pneumotórax”, cena de humor negro envolvendo um tuberculoso e um médico infame; “Pensão familiar”, cena do cotidiano de uma “pensãozinha burguesa”, com o inesquecível gatinho que “faz pipi” e “encobre cuidadosamente a mijadinha” – “a única criatura fina da pensãozinha burguesa”; “Profundamente”, um dos grandes poemas da morte deste grande poeta da morte, e, talvez o mais célebre de seus poemas, “Vou-me embora pra Pasárgada”, deliciosa utopia que apresenta a fantasia de um país em que todos os desejos se satisfazem, especialmente os desejos sexuais:
Analise de alguns poemas
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
– Respire.
..............................................................

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direitoAche os cursos e faculdades ideais para você. É fácil e rápido. infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

- Refere-se à doença de Manuel Bandeira - a tuberculose. A morte, novamente em evidência, é tratada em tom jocoso da primeira geração modernista: humor negro, coloquialismos, auto-ironia, além da técnica de marcação teatral com o emprego do diálogo.
“Vou-me embora prá Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Ver a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

- Nesse poema, Bandeira busca a utopia, a evasão, o lugar onde possa realizar-se, onde fuja da morte (Quando de noite me der / vontade de me matar), onde se mesclem os elementos reais e o non-sense, onde a doença não será empecilho porque simplesmente não existirá, onde a infância será revivida e os homens e mulheres que participaram de sua vida, presentes, representados por Rosa.
O coloquialismo, os versos em redondilha maior e a repetição do verso "Vou-me Embora Pra Pasárgada" remetem-nos à poesia popular.
O termo Pasárgada ocorreu ao poeta num momento de desânimo devido à doença. Ouvira no colégio algo sobre uma civilização ideal, antiga, fundada por Ciro, na Pérsia.

"Porquinho-da-Índia"
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

- Poema de tom narrativo e memorialista, destaca a pureza, a inocência de uma criança que dedica todo seu afeto a um bicho de estimação. O toque de humor fica por conta do verso final, espécie de conclusão em que se introduz a fala do eu lírico.

“A Virgem Maria"
O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo
da Santa Casa e o administrador do cemitério de S. João
Batista
Cavaram com enxada
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora.

A Virgem Maria foi escrito em 1926, seus versos elaborados de maneira livre, exprimem a proximidade do poeta com a morte. A morbidez pode ser considerada um dos temas basilares da poesia bandeiriana, e sua presença possuí relação intrínseca com a tuberculose que o acometeu em 1904. Durante vários anos, Bandeira, foi desenganado por uma miríade de médicos. Devido a essa enfermidade ele chegou a viajar para outros locais em busca de climas mais propícios para curar a doença.
Virgem Maria, escrito em primeira pessoa, traz em seu primeiro verso, “O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de S. João Batista.” Como é possível notar, o poeta cita vários profissionais, que ao longo do poema, estão ligados ao sepultamento do narrador. Primeiramente, temos a figura do oficial de registro civil, a este o enterro de alguém é, de certo modo, algo inerente à sua profissão, haja vista que, a ele é incumbido o ato de registrar quem nasce e quem morre. Ao administrador do cemitério, o falecimento de alguém possuí relevância inegável, não apenas pelo fato de ter que administrar o local de enterro. Sua importância pode ser evidenciada em um sentido oneroso, uma vez que, existem taxas que são cobradas para sepultar as pessoas. Ao citar o coletor de impostos e o mordomo da Santa Casa, é possível notar que o poeta utilizou-se da ironia, isso se evidencia fortemente nos versos subseqüentes. A explicação do uso desse tropo é facilmente entendida se pensarmos que o coletor de impostos só cobra tributos de alguém ao vivo, mesmo assim ele é uma das figuras que enterram o narrador. Já o Mordomo, nomenclatura antiga que era utilizada para designar os diretores responsáveis pelo serviços de todo o hospital, auxilia os outros no enterro. Ora, se analisarmos bem, era dever deste profissional tentar organizar sua equipe da melhor maneira possível para salvar a vida dos pacientes.
Destarte, como vemos nos versos que vão do dois até o oito, todos os sujeitos mencionados anteriormente empreendem um esforço hercúleo para sepultar o eu-lírico, dado que, recorrem não apenas a enxada e a pá, utilizam-se também dos dentes e das unhas para cavar uma cova, como nos diz o verso seis, “mais funda que o meu suspiro de renúncia.” Logicamente percebemos que Bandeira recorreu à metáfora para elaborar esses versos, uma vez que, os atos empenhados pelos profissionais citados não necessariamente se dão na abertura real da sepultura, ou de um buraco propriamente dito, mas sim na maneira que todos estas pessoas desenganaram o narrador através de outro atos que são inerentes a profissão que cada um desempenha. Analisando por este viés, fica fácil compreendermos que a sepultura não precisa ser interpretada como sendo necessariamente física. Mas esta pode estar no íntimo do narrador, ou seja, o sepulcro na verdade estaria calcado no fato da solidão e angústia que ele sente por estar sendo “enterrado” por estes profissionais.
Nos versos seguintes ele é finalmente sepultado. Para cobrir o sepulcro são utilizadas as Tábuas da Lei. Eis que nos surge a seguinte indagação: teria o indivíduo transgredido algum dos princípios estabelecidos no decálogo? Talvez sim, se pensarmos que em uma das Tábuas que é dedicadas ao amor a Deus, ele no momento de sua doença, poderia ter negado a existência do ser supremo. Já na segunda Tábua dedicada ao amor ao próximo, não fica explicito no poema, se o sepultado violou ou não uma das normas.
Depois de se ser sepultado, como poder-se-á notar no poema, ainda vivo, ele escuta a vozinha da Virgem Maria. A mesma, em forma de imagem, é comumente colocada em cima de sepulturas. A santa viola o silêncio do túmulo e diz com sua vozinha que “fazia sol lá fora.” Em seguida, fala “i n s i s t e n t e m e n te”, repetindo que havia sol lá fora. Analisando os versos, perceber-se-á que o uso do diminutivo empregado no substantivo “voz” denota certa brandura. Já o soletramento da palavra “insistentemente”, ajuda a frisar para o leitor a idéia de que o sol estava presente lá fora. Como vemos, o poeta utilizou de uma metáfora bem construída, pois a frase “fazia sol lá fora”, na verdade indica que ainda existia vida.
Analisando todos os versos de A Virgem Maria, concluímos que, Bandeira, consegue transmitir de maneira surrealista, por meio de metáforas bem elaboradas, como é o sentimento de ser desenganado e enterrado. Enfim, ele transmite qual é a sensação de sentir-se sem esperanças em relação à vida. Os versos finais do poema, apesar de nos trazerem que ainda havia uma chance de vida para o indivíduo, essa já não é eficaz, pois a Virgem Maria diz no pretérito imperfeito do indicativo que “fazia sol lá fora.” As palavras da santa ajudam a reforçar também que mesmo com chances de viver ele se deixou vencer, ou seja, o cidadão realmente não estava interessado em viver pois ficou inerte enquanto todas as pessoas que ele cita o “sepultavam.”
O poema conta com quatorze versos. Além disso, poder-se-á observar que, em A Virgem Maria, não existe nenhum tipo de pontuação a partir do segundo verso até o restante do poema, a ausência desta é totalmente proposital. O poeta utilizou sabiamente o recurso, pois ao lermos o texto, ficamos com falta de ar. Além disso, somos invadidos por um grande desespero. Estas duas emoções, causadas graças à falta de pontuação, conseguem transmitir de maneira magistral os sentimentos de ser enclausurado vivo em uma sepultura.
No tocante às figuras de linguagem, Bandeira recorre à anáfora. Nos versos três, quatro e cinco, ela é usada através da preposição “com”, que enfatiza o ato de sepultar o indivíduo, e não apenas faz isso, pois este recurso também ajuda a criar uma sonoridade que se encaixa perfeitamente ao ritmo do poema .
Dos tropos mais marcantes que se engendram nos versos, podemos citar a metáfora – que como vimos anteriormente é amplamente utilizada – e a ironia que se dá principalmente no primeiro verso.
Mesmo tendo sido construído com base nos pilares da versificação livre, Bandeira não abandona em certas partes do poema a rima, que em A Virgem Maria adicionam uma sonoridade especial ao ritmo. Os versos livres não necessariamente rompem com as rimas, como elucida de maneira brilhante, Antonio Candido, em sua obra Estudo analítico do poema, ele diz que “no modernismo a rima nunca foi abandonada. Mas os poetas adquiriram grande liberdade no seu tratamento.”
Para findar esta análise. é de suma importância ressaltar que Virgem Maria tem como características precípuas, as metáforas acerca da morte, ironia, versos livres e. por fim, a desesperança em relação à vida. Estes são os fatores cruciais que nos levam um entendimento maior da obra. Porém, apenas estes, como foi demonstrado, não seriam suficientes caso não tivéssemos recorrido ao contexto de como e quando o poema foi produzido.
- As figuras que aparecem na primeira estrofe revelam a realidade opressora e a morte se pronunciando. Ansiedade, ira e hipocrisia compõem o quadro do enterro até que, em oposição à escuridão e à morte, surge a imagem da Virgem Maria, da qual o poeta só ouve a voz dizendo-lhe que "fazia sol lá fora". É a vida, a liberdade. O termo insistentemente foi grafado de forma especial no poema para enfatizar o seu significado.

"Evocação do Recife"
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pregões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava mudubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

- A subjetividade, o memorialismo, a infância, o folclore e a cultura popular caracterizam esse famoso poema de Manuel Bandeira.
O eu lírico revive cenas do passado, como se fosse menino outra vez.
Ao lado das brincadeiras de infância, surgem pessoas com as quais conviveu: parentes, vizinhos, amigos. Até os nomes das ruas eram líricos: Rua da União, do Sol, da Aurora.
O poema alude ao erotismo, à força das águas, aos pregões e à exaltação do falar popular: "(...) língua errada do povo/ Língua certa do povo".
O ataque ao artificialismo lingüístico, no tom da primeira geração modernista, está em: "Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada". Leia-se por nós, pessoas cultas - escritores, professores, leitores...
A morte, tema fundamental em Bandeira, surge nas últimas estrofes, reforçando que a cidade de Recife de seu passado fora-se como seu avô, restou-lhe apenas a memória.

"Irene no Céu"
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença

O poema é formado de 7 versos irregulares, possui duas estrofes, é um poema . Primeira estrofe tem 3 versos – com a palavra semelhante “Irene”. Na segunda estrofe possui 4 versos . Podemos encontrar o uso de travessões – que são características de uma narrativa (diálogo)
O narrador fantasia a personagem Irene no céu, esta tem um pequeno diálogo com o terceiro personagem do texto, que é São Pedro:
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Olhando ainda para a primeira estrofe não encontramos verbos, enquanto na segunda estrofe há presença de verbos. Sem os mesmos o segundo parágrafo perderia sua essência marcante. A linguagem é do tipo coloquial (exemplo: bonachão) .
 O foco narrativo é da primeira pessoa. O assunto ou seqüência dos fatos apresentados estão em sintonia com o tema, porque consiste na idéia de elucidar uma circunstância real e costumeira da época. Isso também é visto pela presença dos ideais religioso da igreja católica, isto é, a idéia do céu e de São Pedro como seu porteiro ou guardador.    
Há no texto interiorização de figuras familiares, conhecidas, dessa maneira é bem provável que a personagem “Irene” era alguém próximo da história de vida do autor. Percebi-se tal “intimidade” na medida em que o narrador e personagem apresenta os fatos:
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor (...)
 “Irene no céu”, é uma crônica já que se caracteriza pelo tom humorístico ou crítico, que aborda um tema do passado (discriminação racial) bastante culminante na época. Só para se ter uma idéia, a discriminação de raças nesta época era tão grande que era possível presenciar frases do tipo: "Alugam-se quartos. Não se admitem pessoas de cor".
O tratamento de inferioridade dispensado a uma pessoa ou grupo de pessoas por motivos raciais, religioso, político, entre outros na época era constante. O pobre, o negro, o necessitado, parecia que não tinha lugar privilegiado nas classes sociais , imagine no céu. 
A dialética aplicada pelo autor é simplesmente, a meu ver, um grito de justiça e de lição a favor dos pobres e necessitados. No jogo de palavras do texto, encontramos implícitas ou explicitas as oposições da vida: Preto e o branco, o rico e o pobre, o céu e o inferno, o mal e o bom e o conhecido e o desconhecido.  A personagem “Irene” é uma tipologia do tipo de pessoa da comunidade pobre:
O texto elucida uma verdadeira lição de moral : “Irene” era pobre e preta, mas tinha valores que em muitos ricos e brancos não se encontravam: era boa e bem humorada, era do bem, e por ser tão intima foi bem recebida por São Pedro. Ganhou passagem ao céu.
- Embora o poema refira-se à imagem de uma pessoa querida pelo poeta, presente em sua infância, Irene representa também a mulher escrava, submissa, inferiorizada. O poeta sutilmente opõe branco e negro na segunda estrofe, onde Irene pede licença a São Pedro, chamando-o de meu branco.
Há ainda a exaltação à linguagem coloquial. A fala de São Pedro ordena: "- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença". Na linguagem normativa, o correto seria conservar o tu ou empregar o verbo na 3ª pessoa do singular. Assim, teríamos:
- Entra, Irene. Tu não precisas pedir licença
- Entre, Irene. Você não precisa pedir licença
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"Libertinagem contém os poemas que escrevi de 1924 a 1930 - os anos de maior força e calor do movimento modernista. Não admira pois que seja entre os meus livros o que está mais dentro da técnica e da estética do modernismo". (Manuel Bandeira)
Síntese
Obra publicada em 1930, Libertinagem é composta por trinta e oito poemas. Embora comporte características da primeira geração modernista, como o humor, os versos livres e brancos, a linguagem mais coloquial e o cotidiano, o toque especial do poeta faz-se presente em todos os poemas: a simplicidade.
A simplicidade é um elemento importante no estilo de Bandeira. Ela é responsável pelo refinamento dos poemas - abordar o simples é que é difícil - e chega ao primarismo sentimental, sem resvalar na vulgaridade ou no pieguismo.
Libertinagem é, portanto, a novidade, o erotismo, a musicalidade, a força de imagens, o cunho biográfico, a paixão pela vida e a visão da morte, a infância, a pureza, a crítica, a liberdade, a saudade, o amor, a alegria, a tristeza, a evasão, a solidão.

"Pensão Familiar"
Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
                             amarelo!
                                                      resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

Realizaremos uma breve análise do poema "Pensão Familiar", de Manuel Bandeira, de forma a relacionar os poemas segundo padrões estéticos e ideológicos do Movimento Modernista Brasileiro, fazendo-se importante ressaltar que o trabalho a seguir não tem a pretensão de realizar qualquer tipo de análise semântica aprofundada do conteúdo de nenhum dos dois poemas, atendo-se apenas a questões formais.
Para tanto, há de levar-se em conta o fato de que ambos os poemas foram compostos por seus respectivos autores num período que abarca os anos de 1922 a 1930, fase de caráter "radical" modernista, na qual, entre outras, houve a publicação do "Manifesto da Poesia Pau Brasil", por Oswald de Andrade, obra na qual se observa a proposição de alguns aspectos de extrema relevância, que caracterizam a poética do período, e da qual nota-se influência tanto sobre os poemas em questão quanto sobre grande parte das composições literárias e artísticas contemporâneas a ela.
"Pensão Familiar", em anexo, foi publicada no livro "Libertinagem", de Manuel Bandeira, no ano de 1930, tendo sido composta em 1925 pelo poeta. Situando-se entre uma vasta gama de artistas que deram origem ao Movimento Modernista; iniciado em 22 com a Semana de Arte Moderna, na qual o próprio autor teve participação ativa em sua concretização junto a Mário, Oswald de Andrade e outros; Bandeira apresenta em boa, se não toda, parte de sua obra traços especificamente modernistas. O poema, conforme se pretende verificar na seqüência, ilustra a afirmação. Apesar de intitulado "Pensão Familiar", o poema apresenta apenas figuras como os gatos, a tiririca, o sol, gosmilhos, girassóis e dálias, sendo composto por uma única ação efetiva: a do gato "fazer pipi" e "encobrir a mijadinha". Ao resgatar seus atos e afirmar a superioridade na elegância do animal, ressaltada pelo travessão (último verso), sobre todos os outros moradores da pensão, sobretudo levando em conta os versos que antecedem este último (última estrofe) e denotam os gestos do gato, que urina e cobre a excreção, comparando sua naturalidade à de um garçom, em tom de humor, Bandeira debocha e infama cinicamente a sociedade, e provavelmente trata-se aqui da baixa burguesia, em decadência.
O poema seguem a "linha modernista" em relação à métrica, ou seja, opta pelo rompimento com o tradicional, não apresentam regularidade aparente entre os versos, assim como é possível observar-se através de suas composições por verso-livre. Os recursos usados na imposição de ritmo aos poemas são a estrutura dos versos, a pontuação e a disposição consonantal, apreciadas adiante;

"Profundamente"
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Nota-se um sentimento de tristeza quando o poeta se lembra de um tempo “que não volta mais”: quando eu tinha seis anos...
Outro tema recorrente é a sensualidade. Muitas vezes expressada por um sentimento de impossibilidade de alcance do desejo sexual, em virtude dos problemas de saúde que impedem o poeta de ter um vida social e afetiva comum.
Mostra, além de um saudosismo pela infância do eu-lírico de forma melancólica, ideais modernistas, pela quebra de paradigmas com a forma fixa e a métrica (versos livres) e a brincadeira com o campo semântico das palavras em contexto.Interpretando o poema, pode-se dizer que o mesmo se apresenta em dois tempos distintos: o passado (quando tinha seis anos) e o presente (hoje); bem destacados pelos advérbios que aparecem no início da 1ª e da 5ª estrofes, respectivamente.O início do texto mostra algumas lembranças do eu-lírico vividas na noite de São João, quando ele tinha seis anos e não pôde ver o final da festa, porque tinha adormecido. Então, ao acordar (possivelmente, no meio da madrugada), toda a alegria produzida pelas músicas, risadas e brincadeiras do cotidiano das pessoas daquela época tinha desaparecido, porque todos da casa estavam dormindo profundamente (no sentido literal - denotativo). No entanto, a partir da 5ª estrofe, percebe-se a mudança de tempo e a mesma angústia vivida pelo eu-lírico de não ouvir mais as vozes daquele tempo e se questiona até perceber que eles não estavam mais lá, pois haviam morrido (“dormido profundamente” no sentindo conotativo).É interessante a brincadeira que o poeta faz com as palavras em seu sentido denotativo e conotativo (“dormir profundamente”- 4ª e 7ª estrofes); percebe-se, portanto, que se trata de um bom entendedor das palavras que o cercam e que, através de um vocabulário simples, consegue atingir temas tão profundos como a morte e a saudade.Além disso, ele utiliza-se de alguns recursos estilísticos, como o som e, para tal, a terceira estrofe pode ajudar, pois nos quatro primeiros versos, dá para notar a constante repetição do som “s” que provoca a idéia do queimar da pólvora produzida pelo balão (“[...] Estrondos de bombas luzes de Bengala / Vozes, cantigas e risos/ Ao pé das fogueiras acesas. / No meio da noite despertei / Não ouvi mais vozes nem risos / Apenas balões /Passavam, errantes /Silenciosamente [...]”), cuja zoada é cortada pelo advérbio de modo “Silenciosamente”, pois o som do fonema “s”, nesse caso, transmite a idéia do pedir silêncio (a onomatopéia do silêncio “siiii...”), uma vez que, tudo estava calmo, sem zoadas ou sons e quando acontecia algum ruído, era porque um ou outro bonde que passava “cortando o silêncio como um túnel” (comparação).O poema, através de um simples vocabulário, atinge temas tão profundos, de forma criativa, simples (utiliza-se de fatos do cotidiano das pessoas daquela época na noite de São João) e saudosista; típicas características desse autor pernambucano que não só marcou a literatura local, como a do Brasil como um.

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